Pitanga #92.1
Nos 80s o que é massa é o balanço de Bete
Parece que os 80s estão na moda.
E nada é tão fora de moda quanto os 80s.
Porque esse tempo era um acidente depois do outro: Chernobyl, Angra 1, não prender milico facho, Bresser, calça USTop e aquele fantasma das ISTs.
Foi uma infância inteira iluminada por lâmpada fluorescente de loja de departamento, suor oriundo de uma BMX Monark e spray de cabelo inflamável.
Dava até para passar um lápis de olho se você fosse mais destemido.
Tu já parou para pensar o que era viver nutrindo o bom mullet com gel New Wave (Wella) e falta de perspectiva?
Vestir uma semi-bag achando que estava perigosamente próximo de Londres, quando na verdade estava só derretendo no calor da Conde da Boa Vista.
Camisa do Fido-Dido e jurar que já era filho de um Diabo.
Bamba azul-marinho e sentir que tem ventania no DNA.
Mochila emborrachada da Company batendo nas costas para lembrar que o mundo era neoliberal.
Parece meio fora de moda não usar palavras em inglês.
E tu andando pelos corredores da Mesbla como quem atravessa Manhattan depois de assistir um clipe da MTV pirateada na UHF do vizinho.
Os discos.
Os bonecos Comandos em Ação.
Os perfumes falsificados da esperança do lado de cá do muro.
A gente cantava The Smiths sem entender uma palavra.
E talvez compreender estragasse tudo.
Porque existia uma beleza monumental em berrar fonemas inventados como se Morrissey estivesse sofrendo especificamente pela tua paixonite da Ilha do Leite.
A Cultura Inglesa jamais prepararia alguém para traduzir aquele tipo de melancolia.
Os anos 80 eram cafonas num nível profundamente sofisticado.
Tudo brilhava.
Tudo piscava.
Tudo parecia prestes a explodir ao se mover toscamente como um robô.
Ou o sonho de beijar de língua depois de uma banana split ali no primeiro andar da Frisabor (apenas sonho).
Talvez por isso Bete Balanço funcione como uma cápsula radioativa e eu ame tanto esse filme.
Porque ele não tenta reconstruir os 80s como uma série fulêra da Netflix.
Ele fede à Ópio ou Anais Anais.
A fumaça dos cigarros por toda parte.
O neon vagabundo.
A ambição mal paga.
O sexo triste de apartamento alugado.
As pessoas falando alto para esconder o medo colossal de serem ninguém.
Bete Balanço é o Brasil tentando ser cosmopolita com cinquenta Cruzados no bolso e olheira de ressaca emocional.
Uma geração inteira acreditando que podia virar estrela, frequentando boate ruim e repetindo refrão do piramidal Barão Vermelho.
Um desespero neurótico urbano raceado com a decadência sexy dos personagens que fumam seu atestado de falência afetiva.
Tem Cazuza em absolutamente tudo: no excesso, na carência performática, no desejo insuportável de viver rápido antes que o corpo ou o país desmorone.
Já fui acusado de muitas coisas e a que mais me orgulho é de ser muito acazuzado.
Porra, ser acazuzado talvez seja meu grande objetivo de vida.
a gente só conquista a liberdade quando não tem mais nada a perder!
Rever Bete Balanço hoje é entender que os anos 80 não acabaram junto com a TV Manchete.
Eles apenas envelheceram mal dentro da gente.
Igual aquela camisa colorida esquecida no fundo do guarda-roupa.
Igual uma paixão antiga.
Igual pitanga madura: bonita, ácida e já meio passada no ponto, mas irresistívelmente deliciosa.
Bom fim de semana, se encha de orgulho e não faça nada que eu não faria.






